domingo, 20 de março de 2011

Porta Fechada


Quando ele entrou no mar pela terceira vez naquela vida,
Percebeu o quanto aquilo tudo era errado
Não pelo fato de ser madrugada, lá pelas duas
Talvez pela lua, excepcionalmente grande e perto
Mas há sempre algo de errado em um homem que se expande demais.

No universo ao lado, número 15, ele pensou o mesmo
Em decorrência do que tinha pensado daquele mar do erro
Mas como é possível, me diga Lua, que de todos os caminhos imagináveis
No fim, ele retorna para o mesmo mar, pisa na mesma areia, e afunda
E, indo além da terça-feira, morre com a mão no peito,
Por que lhe dói o coração.

As ondas batem forte no seu rosto e tiram sua roupa
Um ano atrás aconteceu o mesmo, mas ele não percebeu
Pois o coração ainda não lhe doía
Ele aprendeu como é importante ver com os olhos na academia
Aprendeu a sentir o chão com os pés na roda de coco
A areia afundava cada vez mais, e lambia, e ardia
E seus olhos queimavam do outro lado.

“Vem você também pro outro lado”, falou aquele que tinha ido
Não o do número 42, o cabalístico não cabe aqui
Era aquele tal qual como ele, só que diferente
Como diria Clarice, solto. Mas isso quer dizer feliz?
No fim ele morreria no mesmo mar, talvez sozinho
Talvez segurando a mão de alguém
E esse talvez é a implosão da morte para todos os outros

E a fusão em um que sentia
E palpitava em todos os sentidos
E jogaria água em seus olhos
E apalparia sua boca
E chamaria de meu
E a idéia de solto se perderia.

E lá no fundo, onde moram os anjos, a porta surgiu
O mar teria se aberto, mas ele não é cristão
Teria que beber da água, no fim, sal e areia
Abrir a porta é se salvar e morrer, meu bem
Escolhas são feitas para cá, pro mar
As ondas molham os seus pés e espancam seu rosto
E você está sujo neste lado, com os olhos em chamas
Chorar não adianta, é saliva do outro que apaga esse fogo na retina

E quando aqueles olhos me olham no escuro
E aquele sorriso dança no coco, meu bem
É aí que eu morro
Mas amanhã é quarta-feira de cinzas e nem sempre é carnaval
Volto pro meu quarto, durmo um pouco
Vivo minha vida, lembro dos meus pais
E penso sempre, sempre, sempre, sempre
Em você do outro lado
E em como, da próxima vez, não vou me afogar
Não vou me afogar no mar do erro, tenho dito com todas as minhas bocas
E todo o ar que se formou em todos os paralelos
Vai fluindo devagar, célula por célula, mas vai

Acredite em mim, meu bem: vai!
E chegarei à porta
E abrirei a porta
E irei contigo pro outro lado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Aeons ago...


I too am far from home.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

domingo, 18 de outubro de 2009

É foda.

É foda.
Mermão, é foda.

É foda como eu não presto, nem no começo, nem no fim.
Muito menos no meio, meu caro.
É foda esse desprezo. E toda essa merda de ser foda e não ser.

É foda, pois eu sou um péssimo filho. Um filho péssimo mesmo. Foda!
É foda pois eu vou fugir de tudo. E o pior: vou fugir sorrindo! Foda!
É foda porque eu vou sentir saudades. E vai ser uma saudade foda.
Vai me quebrar e eu vou dizer "Foda! Quero ir embora."

É muito foda mesmo.

É foda como a roda roda e a mesma engrenagem fodida volta a me cutucar.
É foda como as pessoas rodam e o mesmo sorriso fodido volta a me beliscar.
É foda como eu fico parado, observando tudo.
É foda como eu fico parado.
Observando tudo.
Parado.

É foda como os meus dedos são rápidos. Tão rápidos.
É foda como minha cabeça não. E meus lábios são afiados, baby. Foda.
Mas minha cabeça. Não, minha cabeça. Não.

É foda como a negação se supera.
Degrau, sim. Degrau, não.
Não, não e não!
E é foda como, lá no alto, você só quer descer.

O medo é foda. E a coragem também.
A vida é foda. E a morte também.

É foda como a afirmação se supera.
E todos aqueles conceitos científicos e acadêmicos.
E lá vai ele, fazer ciência.
Fodeu-se, meu caro. Fodeu-se.
É foda!

E a minha alma se ferrou, no pacote.
Pegou o naco consumista.
E tem o sexo, oh, baby!
É foda como o oceano tá tão perto.
Vai me abraçar. Vou-me, afogar.
Vou-me embora, é foda.
Não vou voltar.

É foda como tudo parece tão certo.
Tudo esquematicamente planejado e bem bolado.
E ele se pergunta quem diabos fez esses planos.
E ele se pergunta quem diabos fez essas escolhas.
E, dez anos atrás, ele via a porta da rua com pavor.

Dizer adeus é foda.
Dizer eu te amo é foda.

Adeus.
Eu te amo.
É foda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Fome, um pequeno Absurdo e o que sobrou, em algum lugar.

Crianças não devem atravessar a rua.
Não ao alcance de minha intuição. Preferencialmente, o mais longe possível de minha presença. Pois eles querem que eu veja; querem que eu sinta. Por mais que eu tente negar, eles continuam afirmando. Há algo. Disto eu sei. Há algo, isto eu não nego.
Era o mesmo ponto de sempre. O segundo, depois do terminal. O segundo, antes da faculdade. Eu estava passando por ele, mexendo as pernas, fingindo que me locomovo ou que seriamente tenho motivos para isso. Devia ser a fome, já que era meio dia. Definitivamente, a mesma fome que dilata a pupila do leão. A mesma fome que o faz correr desesperadamente atrás da presa, e morder a presa, e sufocar a presa; e fingir que não tem nada com isso. Afinal, é a fome.
Sentada no ponto, a Fome, entediada, cruzava as pernas. Ela parecia impaciente; intuí pelo balançar hipnótico desleixado do pé cadavérico. É o clima, talvez. Ou o fato de que esperar por um ônibus ao calor do meio-dia é estressante mesmo para Deus, que deixou de ser onipresente a partir das 12:00 horas do dia 28 de novembro de 1986 para nunca mais se interessar por coisas mundanas.
Mas lá estava ela, a Fome, fazendo o que Ele havia lhe pedido desde a criação do primeiro ser vivo: dar um ponto final às coisas. Entenda que coisa é subjetivo, mas fundamental. Ele teve preguiça de criar barreiras, simplesmente criou os bichos soltos. E eles mudaram. Mudaram tanto que, primeiro, os chamou de coisas. Depois os abandonou. Mas a Fome estava aqui para abraçar uma coisa, quem sabe duas. Com sorte, todas as coisas num raio de quilômetros.
O pezinho cadavérico balançava freneticamente. Não, era apenas uma coisa. Apenas uma. E eu veria tudo.
O primeiro ônibus estacionou. Portas abriram. Pessoas subiram. Pessoas desceram.
O segundo ônibus estacionou.
Crianças.

Um grupo de crianças aproximou-se e decidiu que, na melhor das hipóteses, chegariam todos vivos do outro lado da rua. A melhor maneira para tal seria atravessar por entre os dois ônibus, de modo que economizariam tempo e energia em relação a outros trajetos possíveis, mas não tão parcimoniosos. Se possível, atravessariam correndo, sem olhar para os lados. Afinal, quanto menos tempo passamos no meio da rua, maior é a probabilidade de nossa sobrevivência.
Bastou uma menina e um dedilhar.

Percebi que a Fome segurava um livro, ou melhor, folheava um livro. Assim como quem folheia um livro desinteressadamente, apenas passando os olhos pelas imagens, vez ou outra parando a visão em alguma figura digna de atenção (normalmente, um indivíduo nu). Mas aquele não era um livro de imagens. Aquele nem mesmo era um livro de palavras. Era um Pedaço de Absurdo. Eu sabia, porque já tinha visto um, o meu próprio.
A leve inclinação da cabeça por baixo do capuz na direção do grupo de crianças deixou claro o seguinte: a menina, que liderava o grupo aos gritos, era a dona daquele Absurdo. Se ela tivesse a oportunidade de passar os olhos pelas páginas amareladas, provavelmente leria o seguinte:
Morreu.
Na pista.
Por ser criança.

Eu vi a menina morta. Por Deus (ou o que sobrou dele, em algum lugar), eu vi quando sua cabeça foi de encontro ao asfalto e explodiu em uma mancha pastosa e vermelha.
- Não. Não viu.
Era a Fome. Deslocara-se para as minhas costas e agora pousava uma mãozinha delicada no meu ombro.
A menina correu por entre os ônibus. Um carro freou e levantou uma fumaça densa de pneu queimado. Não havia som. O corpinho se chocou na lateral do carro, mas não bastou. Ela continuou correndo. Correndo. Correndo. Correndo.
Correu até sumir do mapa.

O livro foi fechado.
Fome subiu no segundo ônibus (bem provável, um 020).
Eu cheguei em casa e almocei.
Dispensei a salada, pra variar.
E não entendi porra nenhuma.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ex-Machina

Decidiu que não devia matar, pois não era uma arma.
Assim, se distanciou do que era chamado de exército e pensou que, talvez, na academia, tudo daria certo.
Eram 23 horas e 35 minutos.
Trinta e seis.
Em ponto.

Decidiu deixar a barba crescer “para ver no que vai dar”. Um misto de preguiça e frustração por dentes tortos por tempo demais. Tempo demais.
E um rosto estupidamente assimétrico. Certos dias, na frente do espelho, sente vontade de alcançar a marreta mais próxima e martelar-se com gosto no lado esquerdo do rosto. Ao invés disso, senta-se, pega uma caneta, um papel e escreve.

Às 17:20, todos os dias, levanta-se, troca de roupa, estica-se e sai para caminhar. Sabotou-se com a saúde, mas isso já era claro sem cigarros e sem álcool. Terá uma vida longa enquanto conseguir manter os 20 dedos, como já foi dito.
O problema da saúde é o amor. Não exatamente o amor, mas o tanto que se sofre por ele. Veja bem, são os olhos. Um par de órgãos, talvez simétricos, talvez bonitos. Mas, apenas, olhos. E um sorriso.

O sorriso não é arma, mas mata.
Os dentes, no ato da mordida, desfalecem a carne. Quando fechados e expostos, o cerebelo.
E, tonto, já se esquece do futuro. E do passado. E por que diabos está ali, desenhando nove círculos no sentido horário.
No fim, não há dentes. Apenas lábios. E a vontade.

Decidiu que não devia votar, pois não era um cidadão.
Pretendia passar despercebido, viver despercebido, até sua hora.
Mas não quer dar uma de Macabeu e terminar no asfalto à espera de um leque de possibilidades. Muito menos mutilado por romanos.
Leões, talvez.

E enquanto fica trancado, largado no meio de livros, se pergunta se tudo vai dar certo.
Sabe que vai. Como sabe? Não sabe.
Mas sabe que vai.
E ainda assim pergunta. Por quê?
Porque não sabe. Então pergunte!

Passaram-se quatorze minutos e ele ainda não tem a resposta.
Quinze e dois segundos.
Precisa ler mais, mais, mais.
Escrever mais, mais, mais.
Mas não o fez, pois não é uma máquina.
Não sou uma máquina!

NÃO! SOU! UMA! MÁQUINA!

sábado, 22 de agosto de 2009

Sobre dez minutos de sorte e um pouco de azar.

Há de se perguntar por que, só agora, eu cheguei a postar os manuscritos de 10 minutos.
Eu também me pergunto. Um bom motivo é o de que eles precisam ser divulgados, já que uma boa alma ou outra chegou a elogiar o que foi escrito, então nada de bom para o que fica arquivado em uma pasta esquecida. Outro bom motivo é o de que finalmente pensei em como continuar a história. Me deu uma grande vontade de escrever nesta noite. Pra variar, não escrevi, mas tenho um fim de semana inteiro de tédio pela frente. (Atualização: Hoje é domingo e nada ainda. Tudo culpa do Caba!)

Agora, há de se fazer uma breve nota: eu não gosto do que foi escrito em 10 minutos.
Enquanto em Revolta e textos sincrônicos, eu me pergunto se eu mesmo escrevi esses manuscritos ou que tipo de droga afetava meus sentidos durante o processo, em 10 minutos eu sinto uma breve vergonha, até repulsa do que foi escrito. Não gosto. Não gosto mesmo. Tanto que deletei todo o último capítulo que havia escrito, sobre o mascarado de nome Eric Bloom. Ele merece algo bem melhor.

Até.

PS: As chamadas de Revolta também foram mudadas, mais para seguir uma ordem cronológica, já que a primeira revolta, na verdade, é a última e a segunda é a primeira. Enfim.