sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Fome, um pequeno Absurdo e o que sobrou, em algum lugar.

Crianças não devem atravessar a rua.
Não ao alcance de minha intuição. Preferencialmente, o mais longe possível de minha presença. Pois eles querem que eu veja; querem que eu sinta. Por mais que eu tente negar, eles continuam afirmando. Há algo. Disto eu sei. Há algo, isto eu não nego.
Era o mesmo ponto de sempre. O segundo, depois do terminal. O segundo, antes da faculdade. Eu estava passando por ele, mexendo as pernas, fingindo que me locomovo ou que seriamente tenho motivos para isso. Devia ser a fome, já que era meio dia. Definitivamente, a mesma fome que dilata a pupila do leão. A mesma fome que o faz correr desesperadamente atrás da presa, e morder a presa, e sufocar a presa; e fingir que não tem nada com isso. Afinal, é a fome.
Sentada no ponto, a Fome, entediada, cruzava as pernas. Ela parecia impaciente; intuí pelo balançar hipnótico desleixado do pé cadavérico. É o clima, talvez. Ou o fato de que esperar por um ônibus ao calor do meio-dia é estressante mesmo para Deus, que deixou de ser onipresente a partir das 12:00 horas do dia 28 de novembro de 1986 para nunca mais se interessar por coisas mundanas.
Mas lá estava ela, a Fome, fazendo o que Ele havia lhe pedido desde a criação do primeiro ser vivo: dar um ponto final às coisas. Entenda que coisa é subjetivo, mas fundamental. Ele teve preguiça de criar barreiras, simplesmente criou os bichos soltos. E eles mudaram. Mudaram tanto que, primeiro, os chamou de coisas. Depois os abandonou. Mas a Fome estava aqui para abraçar uma coisa, quem sabe duas. Com sorte, todas as coisas num raio de quilômetros.
O pezinho cadavérico balançava freneticamente. Não, era apenas uma coisa. Apenas uma. E eu veria tudo.
O primeiro ônibus estacionou. Portas abriram. Pessoas subiram. Pessoas desceram.
O segundo ônibus estacionou.
Crianças.

Um grupo de crianças aproximou-se e decidiu que, na melhor das hipóteses, chegariam todos vivos do outro lado da rua. A melhor maneira para tal seria atravessar por entre os dois ônibus, de modo que economizariam tempo e energia em relação a outros trajetos possíveis, mas não tão parcimoniosos. Se possível, atravessariam correndo, sem olhar para os lados. Afinal, quanto menos tempo passamos no meio da rua, maior é a probabilidade de nossa sobrevivência.
Bastou uma menina e um dedilhar.

Percebi que a Fome segurava um livro, ou melhor, folheava um livro. Assim como quem folheia um livro desinteressadamente, apenas passando os olhos pelas imagens, vez ou outra parando a visão em alguma figura digna de atenção (normalmente, um indivíduo nu). Mas aquele não era um livro de imagens. Aquele nem mesmo era um livro de palavras. Era um Pedaço de Absurdo. Eu sabia, porque já tinha visto um, o meu próprio.
A leve inclinação da cabeça por baixo do capuz na direção do grupo de crianças deixou claro o seguinte: a menina, que liderava o grupo aos gritos, era a dona daquele Absurdo. Se ela tivesse a oportunidade de passar os olhos pelas páginas amareladas, provavelmente leria o seguinte:
Morreu.
Na pista.
Por ser criança.

Eu vi a menina morta. Por Deus (ou o que sobrou dele, em algum lugar), eu vi quando sua cabeça foi de encontro ao asfalto e explodiu em uma mancha pastosa e vermelha.
- Não. Não viu.
Era a Fome. Deslocara-se para as minhas costas e agora pousava uma mãozinha delicada no meu ombro.
A menina correu por entre os ônibus. Um carro freou e levantou uma fumaça densa de pneu queimado. Não havia som. O corpinho se chocou na lateral do carro, mas não bastou. Ela continuou correndo. Correndo. Correndo. Correndo.
Correu até sumir do mapa.

O livro foi fechado.
Fome subiu no segundo ônibus (bem provável, um 020).
Eu cheguei em casa e almocei.
Dispensei a salada, pra variar.
E não entendi porra nenhuma.

3 comentários:

Victor disse...

A Fome por acaso é um pseudônimo da morte?
E Deus, não por acaso, resolveu encarnar no seu corpo por estar de saco cheio...?

Pedrow Z disse...

Fome, Morte, Peste, Guerra... Qual a diferença? Todas montam cavalos e aparecem no fim dos tempos. E eu tinha escrito esse texto há um ano, mas não publiquei. Então, acredito que o sentido era meio como "Deus ficou de saco cheio de ter que esperar ônibus embaixo do sol de meio dia passando fome, e por isso decidiu abandonar tudo" coincidentemente um dia antes do meu nascimento. É a vida...

Helen disse...

Deus não pode ter abandonado tudo um dia antes do seu nascimento... simplesmente porque Deus não existe. Se isso te deixava triste, desencane... Ao terminar de ler a última frase fiquei aliviada, afinal não somente eu não entendi "porra nenhuma"