quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ex-Machina

Decidiu que não devia matar, pois não era uma arma.
Assim, se distanciou do que era chamado de exército e pensou que, talvez, na academia, tudo daria certo.
Eram 23 horas e 35 minutos.
Trinta e seis.
Em ponto.

Decidiu deixar a barba crescer “para ver no que vai dar”. Um misto de preguiça e frustração por dentes tortos por tempo demais. Tempo demais.
E um rosto estupidamente assimétrico. Certos dias, na frente do espelho, sente vontade de alcançar a marreta mais próxima e martelar-se com gosto no lado esquerdo do rosto. Ao invés disso, senta-se, pega uma caneta, um papel e escreve.

Às 17:20, todos os dias, levanta-se, troca de roupa, estica-se e sai para caminhar. Sabotou-se com a saúde, mas isso já era claro sem cigarros e sem álcool. Terá uma vida longa enquanto conseguir manter os 20 dedos, como já foi dito.
O problema da saúde é o amor. Não exatamente o amor, mas o tanto que se sofre por ele. Veja bem, são os olhos. Um par de órgãos, talvez simétricos, talvez bonitos. Mas, apenas, olhos. E um sorriso.

O sorriso não é arma, mas mata.
Os dentes, no ato da mordida, desfalecem a carne. Quando fechados e expostos, o cerebelo.
E, tonto, já se esquece do futuro. E do passado. E por que diabos está ali, desenhando nove círculos no sentido horário.
No fim, não há dentes. Apenas lábios. E a vontade.

Decidiu que não devia votar, pois não era um cidadão.
Pretendia passar despercebido, viver despercebido, até sua hora.
Mas não quer dar uma de Macabeu e terminar no asfalto à espera de um leque de possibilidades. Muito menos mutilado por romanos.
Leões, talvez.

E enquanto fica trancado, largado no meio de livros, se pergunta se tudo vai dar certo.
Sabe que vai. Como sabe? Não sabe.
Mas sabe que vai.
E ainda assim pergunta. Por quê?
Porque não sabe. Então pergunte!

Passaram-se quatorze minutos e ele ainda não tem a resposta.
Quinze e dois segundos.
Precisa ler mais, mais, mais.
Escrever mais, mais, mais.
Mas não o fez, pois não é uma máquina.
Não sou uma máquina!

NÃO! SOU! UMA! MÁQUINA!

1 comentários:

Caba disse...

"Certos dias, na frente do espelho, sente vontade de alcançar a marreta mais próxima e martelar-se com gosto no lado esquerdo do rosto. Ao invés disso, senta-se, pega uma caneta, um papel e escreve."

...Putz!