sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sorte nº 5 - A Fraternidade

Chovia como o fim do mundo na cidade devastada.
Ele corria pelo asfalto molhado tentando negar o gosto salgado que sentia no ar.
Chovia lágrimas na cidade devastada. Lágrimas perfumadas.
Faltava pouco. Mais alguns metros e o brilho vermelho radiante tomaria por completo todo o ambiente. Podia sentir o calor que fluía por aquelas ondas vermelhas e sabia que em breve sua retina captaria tais estímulos. Apertar o botão. Acabar com a dor. Acabar com o mundo. Faltava pouco...
- Mais um passo e eu estouro os seus miolos.
Finalmente ele o alcançara. Não precisou olhar para trás, a respiração pesada cortava o som da chuva, o som do choro, e explodia em seus tímpanos. O mascarado deslizava pelo concreto da calçada em sua direção. A arma em punho. O dedo no gatilho.
- Eu preciso voltar.
- Não. Não ainda. Você precisa ouvir a profecia antes de acabar com tudo. E desta vez, meu chapa, as coisas serão difíceis.
- Eu não quero ouvir!
- Tarde demais...
O som do atrito entre a corda e a ignição da engenhoca infantil fora ensurdecedor. Golconde de René Magritte. Um homem bem vestido, à sua frente, tendia ao infinito, assim como o coelho de pelúcia em suas mãos. Por todos os lados ele ouviu a corda sendo puxada e os estalos da máquina na pelúcia. Levou as mãos às orelhas tentando se livrar da nova agressão auditiva. A voz meiga e mecânica soou no universo.
- Hexagrama 13: T’ung Jen, a união entre os homens.
Ele não queria ouvir. Não queria escutar. Não agüentava mais.
Com as mãos ainda bloqueando o canal auditivo, disparou rumo ao feixe de luz vermelha, ainda invisível deste lado da cidade devastada. Esbarrou no homem à sua frente e em todos os outros que surgiam por todos os lados. Gritava, mas não ouvia a própria voz. O som da chuva, do choro, do Coelho, dos disparos... Sentiu os dois joelhos explodirem. Fumaça saiu do cano do revólver nas mãos do mascarado.
- A União entre os Homens, às claras, traz sucesso. É propício atravessar a grande água. O Céu e o fogo juntos formam a... Ele escondeu suas armas... A solidariedade virou desconfiança. Ele teme um inimigo forte... Esse método não é adequado e dificulta o caminho da união. Ao buscar astúcias no adversário, ele não estará, com isso, abrigando segundas intenções?... Mais se distanciará da união dos homens.
Não conseguiu ouvir toda a profecia. O conflito de sons, o conflito de mentes, dificultava todo o processo. O homem infinito falava por trás da voz infantil e metálica. Sua voz era arrastada e tediosa. Suas palavras eram mortais. A mente do rapaz ignorou cada sílaba proferida pelos lábios infinitos. O acumulo de informações o lançaria no poço da loucura, caso ainda não o tivesse alcançado.
Arrastando-se pelo asfalto encharcado de lágrimas e sangue, ele sentiu o breve calor irradiar por sua mão. O botão vermelho jazia logo adiante e seu brilho tornava aquele quadro surreal ainda mais alucinante. Arrastou-se por mais algumas dezenas de metros e se viu percorrendo centenas. Projéteis eram disparados no chão ao redor de seu corpo. O mascarado se divertia e expelia sua risada gutural. O homem infinito sibilava.
A visão do botão trouxe-lhe também a imagem de um garoto. Um jovem garoto usando roupas exóticas, talvez árabes, contemplava o cogumelo cognitivo com um olhar desesperado, aterrorizado e, estranhamente, esperançoso. Seus dentes estavam cravados no próprio lábio inferior e sangue escorria pelo seu queixo liso. Ele transparecia a dúvida. Ele era a dúvida. A dúvida de um suicida.
- Pode deixar que eu acabo com isso – adiantou-se o rapaz, ofegante.
Sua mão talhada pelo asfalto roçou a superfície lisa e fria do botão. Era o fim.
Seria o fim, se a mão pequena e frágil do garoto não lhe tomasse o pulso.
- Não.
A voz não era humana.
A pequena mão fechou-se por sobre o pulso do rapaz. A dor em seus joelhos destruídos fora esquecida, substituída pela dor causada por aquela imagem deslocada da dúvida. Rádio e ulna foram destruídos e reduzidos a fragmentos que romperam-lhe a pele e os vasos sanguíneos. Sua mão pendeu inerte no ar quando o aperto sobre-humano extinguiu-se. Um filete disforme de pele e tendões prendia o que sobrou da mão ao braço.
A força não era humana.
Aquele garoto não era humano.
Uma voz feminina, chorosa, soou do alto, no Universo, e a vibração de seu timbre agitou cada átomo do corpo do rapaz.
- Acorde.

Abriu os olhos e contemplou o pálido teto de seu quarto iluminado pelos fracos raios do sol que desbotava ao leste. Girou o rosto para o criado-mudo e contemplou o despertador. Ainda lhe restavam 8 minutos para o horário programado no aparelho, quando ele soaria como uma orquestra sinfônica no pequeno aposento. Um breve bocejar, para então seu olhar cair sobre o velho “caderno de sonhos”, o qual fora abandonado há muito tempo. Os sonhos cessaram. Do mesmo modo que surgiram, sumiram.
O problema era o seguinte: objetos largados no fundo de uma gaveta não apresentam livre-arbítrio suficiente para se deslocarem para o meio externo sem a ajuda de um mediador. Não recordava-se de ter pego o caderno, nem mesmo de ter escrito algo. Para a sua surpresa, alguém escreveu algo. E este alguém possuía uma letra bastante semelhante à sua própria.

Aconteceu de novo. Não sei explicar muito bem, eles simplesmente acontecem. É a mesma sensação de quando você dorme durante o dia e acorda achando que a noite inteira já passou. Você se levanta, prepara-se para tomar um banho e ir cuidar dos seus assuntos, quando descobre que apenas uma ou duas horas se passaram desde que você fechou os olhos. O desnorteio no tempo.
Mas comigo não é tão simples. Durmo hoje e acordo semana que vem, ou mês passado. Os eventos simplesmente não seguem uma ordem cronológica, ou mesmo espacial. Durmo em minha cama e acordo no ônibus. Cochilo vendo televisão e acordo na casa dos meus pais. E, depois de um tempo, me vejo acordando no presente, aonde eu realmente deveria estar, como um alfinete do destino a me cutucar em dúvida. Será que tudo não passou de sonho?
Lembro de uma vez ter dormido pelo que achei ser um dia, mas na realidade foi uma semana. Eventos, dos quais não me lembro, ocorreram durante o período de sono. As pessoas comentam como se eu realmente tivesse vivido estes momentos, perguntam se podem repetir o jantar excelente da segunda-feira, ou perguntam como foi a reunião da quarta. Respostas automáticas sempre me surgem em mente, como “o camarão estava mesmo uma delícia” ou “o relatório está com o fulano”, e são estas respostas, somadas aos comentários alheios, que me convencem de que eu realmente estive onde devia estar.
Outras vezes lembro-me de ter escrito algumas páginas deste caderno. Porém, muito do que eu escrevi simplesmente sumiu. Minha louca lógica me leva a crer que devo ter escrito em um tempo futuro, mas a impiedosa agulha cínica do destino me diz que foi tudo um sonho. Minha memória está embaralhada por algum desarranjo nas minhas sinapses. Ou eu estou realmente louco.

E.B.

Leu a última linha mais uma vez. “Ou eu estou realmente louco”. Não recordava-se de ter escrito algo naquele caderno. Mas escrevera, e bastante coisa por sinal. Segundo o que ele mesmo expressou naquelas linhas, mais do que sua própria memória poderia supor.
- Estou louco. Virei um puto de um louco.
A conclusão era óbvia. Ou tudo era loucura de sua parte, ou tudo era uma armação para induzi-lo ao manicômio mental. Contudo, paranóia excessiva (Oras, é a minha letra!) também pode ser considerada loucura.
Passou de página.

Havia fumaça no aposento, mas acredito que ninguém ali fumasse. Acho que era tudo culpa daquele coelho doentio, querendo que eu entrasse no clima, ou algo do tipo. Estávamos todos sentados ao redor de uma mesa simples e redonda. Jogávamos cartas, certamente poker. Fichas estavam amontoadas por sobre a mesa e o Coelho distribuía as cartas.
- Você não está aproveitando o seu chá. Vamos, comemore com seus irmãos! – ele disse com sua meiga voz.
- E o que tem de se comemorar?
- A reunião dos homens. E da senhorita, me perdoe. Está tudo entrando nos eixos, meu querido.
Fácil para um boneco de sonhos falar isso. Não é ele que tem que encarar uma realidade atormentada do lado de fora da minha mente. Enfim, ele distribuiu as cartas entre os presentes. Éramos o Coelho e eu, acompanhados por mais quatro outros. Dentre eles uma senhorita, suponho baseando-me no que disse o da pelúcia. Os rostos estavam envoltos em sombras e névoas, de modo que eu conseguia apenas perceber a silhueta de meus acompanhantes.
Recebi minhas cartas. Mas não eram bem cartas de um baralho convencional. Não existiam números, naipes ou imagens da realeza. Apenas linhas. Seis em cada carta. Algumas completas, outras tracejadas. E, embaixo dessas linhas, existiam nomes em uma língua que eu não conheço. O engraçado é que ainda consigo lembrar de cada carta desta, então prefiro esboçá-las aqui para um conveniente futuro:

 

De algum modo eu sabia que aquelas cartas estavam ligadas aos meus acompanhantes de mesa. O homem ao meu lado, que possuía uma estranha e pesada respiração, iniciou as apostas. A voz metálica do Coelho sussurrou em minha mente:
- Ching. O Alter-Ego destrutivo. Você consegue suportar a ruptura de sua mente? O alojamento de um parasita de instintos assassinos em seu encéfalo? O impulso criativo de puxar o gatilho? A criação pela destruição.
Seguindo a linha de apostas, outro homem lançou suas fichas no centro da mesa. O Coelho mais uma vez sussurrou:
- Hsu. O tédio da incompreensão. Você será capaz de receber o seu presente? Será capaz de inovar? De escapar da tediosa linha de raciocínio daqueles que não enxergam a vida? Daqueles que não vivem a vida? Daqueles que morrem sem perceber que viveram?
Uma mão feminina surgiu nas sombras e fez a sua aposta. Uma mão que possuía uma bonita e reluzente aliança no dedo anular.
- Kuei Mei. A noiva que chora. Ah, o amor... Você consegue entendê-lo? Consegue decifrá-lo? Consegue defini-lo? Não espere respostas daquela que se debulha em lágrimas. A confusão que lhe aflige o cérebro, amigo, atormenta o coração da jovem que se casa.
A mão de uma criança surgiu nas sombras. Por um momento... Por um rápido momento, eu percebi que não se tratava de uma mão humana. Como se por baixo daquela pele existissem articulações robóticas, fluidos, fios, cabos... O que era aquela mão?
- Ting. A agonia do esquizofrênico. O que é a realidade? O que é o sonho? Quando eles se unem? Quando se separam? Apertar o botão nunca foi tão difícil... Machina Ex Deus.
Por fim, o Coelho fez a sua aposta. Sua mãozinha branca e felpuda arrastou as fichas até o centro da mesa, emitindo alguns estalos em sua engenhoca interior.
- Hsieh. O fim e o começo. Deus Ex Machina. O delírio, meu amigo, está apenas começando. Prepare-se. E acredite no que seus olhos enxergam. Melhor, acredite no que sua mente enxerga.
Todos pareciam confiantes em suas cartas, quando eu nem sabia o que significavam as minhas. Só sei que no fim, nesta jogatina surreal, sem saber de regra alguma, sem ao menos saber os valores das apostas ou mesmo o que estava em jogo, eu apostei todas as minhas fichas.

E.B.

1 comentários:

Caba disse...

Muito foda,
acho que eu tinha lido algo parecido antes, mas não me recordo bem.
O problema é o seguinte, vc vai se instigando a ler alguma coisa que não tem fim, o que não é interessante. Logo, reitero a possibilidade de você continuar essa confusa historinha divertida para a alegria de todos.

Caba.