sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sorte nº 4 - A Mordida

Estavam deitados sobre a sombra de uma frondosa árvore. Era o fim de um dia ensolarado e os sons da cidade pareciam distantes no meio da natureza artificial criada no que se chamou de parque. O passado, um trauma, não interferia nesta tarde de sol, simplesmente não parecia ter havido algum. É o tipo de coisa que se sente quando se tem alguém querido por perto, o congelamento do universo.
Um inseto, que ele chamaria de joaninha caso apresentasse bolinhas pretas na carapaça vermelha, pousou no seio dela. Tentador. O rapaz observou o rosto sonolento da namorada, os seus olhos fechados, e se permitiu estender as mãos e tentar espantar aquilo que não causou mal algum. Motivos por trás de motivos, o inseto voou antes que sua mão o alcançasse, dando toda uma conotação pervertida à cena.
- Eu estou de olho.

- Como você conseguiu esta mordida?
Ela acendeu a luz do aposento que seria a sala e o sentou em uma cadeira para poder analisar melhor o ferimento. Uma mordida, sem dúvidas, na área do tendão de Aquiles. Uma torrente anormal de sangue fluía para fora dos buracos na carne; sangue demais, feridas de menos. Nem um sinal de coagulação, apenas um fluxo contínuo e interminável. Suas células sanguíneas não pareciam querer cooperar para a cura.
Ela levantou-se e partiu atrás de medicamentos ou qualquer outra coisa que ajudasse a estancar a ferida. O rapaz ficou só. Os cotovelos apoiados nas pernas. Os olhos perdidos na mancha vermelha que ia crescendo no piso. Uma mão imaginária brotou em sua mente e começou a procurar a mordida em meio às lembranças. O ferimento era recente, mas descobrir a sua causa foi um tanto difícil. Não sabia o que estava acontecendo com a sua cabeça. Achou um artigo relacionado.

Terminaram mais um beijo. Um tanto mais ardente, depois do episódio com o inseto. O sol já não se mostrava mais no horizonte e as estrelas aos poucos brotavam. Mas seus olhos não perceberam este fenômeno, apenas se encaravam em um momento livre à imaginação. Seja lá o que eles estivessem pensando. Ele demorou a perceber aquele vulto em seu ponto cego, o rosto de sua namorada era mais interessante. Mas aquela mancha negra, curvada, mascarada, acabou por chamar a sua atenção de vez, o que lhe surtiu como um banho de água fria, pois a sensação foi a mesma. O assassino estava mais uma vez ali na frente dos dois.
Ao perceber o olhar perdido de seu namorado e o seu toque trêmulo, a garota girou o rosto e notou quem os observava. Gritou e apertou o abraço no parceiro. A respiração pesada e fria mais uma vez os envolveu e possuiu suas almas, dessa vez eles morreriam. Quão foi a surpresa da garota ao perceber que o namorado desvencilhava-se de seu corpo para poder ficar em pé. Com um sorriso tranqüilo nos lábios, ele caminhou por sobre a grama na direção do mascarado.
- Não vá!
Rindo, ele parou o deslocamento e mostrou o rosto sorridente para a namorada. Era um sorriso confiante que há tempos não demonstrava.
- Não se preocupe. É só um sonho.

- Parem! Parem!
As lágrimas corriam pelo seu rosto corado de fúria. O sol já estava se pondo naquela tarde, deixando todo o céu com aquela mórbida cor de sangue que lembrava às crianças a hora de tomar banho. Aquele tom de vermelho também se encontrava no solo, mais adiante, irradiando do sangue que era espalhado para todos os lados a cada chute. Quatro grandalhões espancavam até a morte o seu querido e único cachorro. Não podia defendê-lo. Era uma criança pequena, magra, fraca.
- Parem com isso!
Só podia gritar e implorar pela vida do cão. O choro verteu por sua garganta e já não conseguia mais expressar palavras, apenas um grito contínuo da dor de ver quem se gosta naquele estado. Por que eles estavam fazendo isso? Ouviu a voz meiga e metálica sussurrar-lhe no ouvido.
- Você tem que matá-los.
- Sim, eu irei matá-los.
Sentiu uma dor exorbitante na perna. A mordida.

A mão feminina segurou-lhe o braço e parou o seu deslocamento. O mascarado estava parado mais alguns metros à frente, como se esperasse pacientemente a aproximação do rapaz. O que não se mostrou fácil.
- Um sonho? E quanto ao seu senso de realidade? Sendo um sonho, ou não, eu não quero morrer! Você também não pode morrer!
- Isso é só um sonho! No fim das contas tudo acaba e eu acordo! Não vai alterar em nada a minha vida real!
- Não importa! Nós somos reais nesta realidade! Esta é a minha existência! Não quero que ela acabe!
- Mas eu preciso conversar com ele. Saber o que ele quer comigo. Por que ele está atrás de mim. Você só está atrapalhando!
Puxou o braço com força e se libertou da mão firme da namorada. O sorriso abandonou o rosto, dando lugar a uma expressão série, irritada. Os passos continuaram na direção do mascarado. Ela só atrapalhava. Já não era mais necessária, não nesta realidade. Seus lábios proferiram a sentença.
- Faça-a parar.

- Eu fui mordido nesse mesmo local quando era criança.
Suas palavras quebraram o silêncio do aposento. Ela tinha conseguido estancar o sangramento, que parou como o fluxo de água pára ao se fechar uma torneira. Seu pé já estava devidamente enfaixado e já não sentia mais dor alguma. Depois de todo o combate dos medicamentos contra as infecções, a dor inicial não parecia grande coisa.
- Cicatrizes de infância não abrem de uma hora para a outra.
- Eu sei disso. Mas essa é a única mordida que eu consigo lembrar.
Percebeu o olhar descrente da namorada enquanto ela se levantava para arrumar os materiais utilizados no preparo do curativo. Chateado, tornou a vasculhar a própria memória em busca de alguma resposta. Só então percebeu o quanto era estranha a lembrança de sua infância: alguém o acompanhava. Outra criança? Provavelmente. Mas crianças não pensam em resoluções psicopatas para problemas. Não a criança que ele acreditava ter sido. Remoendo a memória do fato, percebeu o animal que o mordera. Esta revelação de sua mente o deixou abalado.
- Que bicho te mordeu?

O corpo baleado da garota jazia no gramado. Estava morta. Finalmente. A fumaça ainda saia do cano do revólver quando o rapaz finalmente encontrou o assassino. Por um tempo se fitaram, se analisaram. Reconheceu os olhos amarelos e sentiu a sua respiração fria e mecânica. Teve a sensação de que o conhecia de outro lugar que não o do incidente. Chegara a hora de descobrir quem era aquele ser que parecia ter saído de um pesadelo.
- Quem é você?
- Quem é você?
Riu ao ouvir a resposta para a sua pergunta. Sua risada foi acompanhada por um som bizarro emitido pelo mascarado, uma tosse prolongada e pesada. Só então o rapaz percebeu que ele estava rindo também. O que ele queria, afinal? Além de imitar a sua pergunta, também acompanhava a sua risada.
- Tire a máscara.
- Tire a máscara.
- Não estou com paciência para joguinhos infantis.
- Não estou com paciência para joguinhos infantis.
Irritado, o rapaz pegou a arma do mascarado, que não reagiu, e apontou contra o mesmo. O que era que estava acontecendo? Ele queria respostas e não brincar de mímico. Pensou que o ameaçando, poderia obter as suas respostas.
- Por que você não mostra o rosto, assassino?
- Por que você não mostra o rosto, assassino?
- Você tem que matá-los.
O indicador estava prestes a puxar o gatilho, quando ele sentiu uma forte dor na perna. Olhou para baixo e viu um cachorro mordendo-lhe a canela, rosnando. Para a sua surpresa, aquele era o seu cachorro de infância, que fora morto pelos marmanjos da rua onde morava. Mas por que ele estava mordendo o próprio dono? Por que o impedia de ir adiante e puxar o gatilho? Não estava interessado por estas respostas.
Chutou o cachorro para longe e disparou alguns tiros contra ele, matando o animal. Sua perna sangrava e ardia, mas a dor da mordida não era mais forte que a sua ânsia pelo conhecimento. Precisava saber o que estava acontecendo com ele, por que estava tendo esses sonhos bizarros. Voltou a apontar a arma para o mascarado e puxou o gatilho.
No mesmo instante, sentiu uma dor forte no peito. Também fora baleado. Levou a mão ao local onde fora perfurado pela bala e sentiu o sangue quente jorrando para fora de seu corpo. Ergueu o rosto para observar o mascarado e viu que ele fazia o mesmo, copiava os seus movimentos. Uma luz forte e vermelha iluminou sua face, o botão surgiu por entre as tripas do seu animal de estimação. Tinha que apertá-lo. O problema é que o assassino pareceu ter a mesma idéia.
Ambos correram cambaleantes na direção da carcaça do animal. O que seria dele, caso outra pessoa apertasse o botão? Não queria descobrir. Apontou a arma contra o mascarado, enquanto corria, e voltou a atirar. Novamente, viu-se baleado em outras regiões do corpo. Mas a dor não importava mais, o pânico era maior. Saltou desesperado em direção ao botão. O outro também. As mãos se roçaram no ar. Não podia perder. Apontou a arma contra o rosto do inimigo e puxou o gatilho. A máscara foi lançada longe. Apertou o botão. E antes que o mundo acabasse, a última informação que seu cérebro baleado processou foi o reconhecimento do próprio rosto por trás da máscara do assassino.

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