Andavam de mãos dadas por entre a multidão. Ela ia mais na frente, apressada, soltando gritos de euforia em resposta aos chamados do vocalista no palco. Alheio à música e a tudo que lhe ocorria ao redor, ele caminhava a contragosto. Não queria estar ali, em um ambiente hostil, onde seu cérebro precisava estar em pleno vapor para reagir aos vários estímulos que o festival proporcionava. O jogo de luz irritava profundamente a sua retina, o som alto fazia a sua cabeça explodir e implodir a cada segundo. Se não fosse por sua acompanhante, seria jogado ao chão e pisoteado na primeira colisão com a massa descontrolada de pessoas a pular e cantar.
- O que você tem?
Não se deu conta de que finalmente chegaram a um local mais tranqüilo, onde as pessoas mantinham uma distância mínima de três metros entre si e os contatos íntimos só eram realizados entre os casais. Ela estava parada logo a sua frente. O rosto vermelho, a centímetros do seu, não disfarçava uma certa indignação de quem preferia estar lutando pela própria vida em frente ao palco a estar parado naquela zona livre de calor humano longe das caixas de som.
- Estou com um pouco de dor de cabeça, não dormi bem essa noite. Fique tranqüila, daqui a pouco passa.
Sabia muito bem que a dor não ia passar; não enquanto ele continuasse naquele local agressor de sua saúde física e mental. Porém, não podia decepcioná-la, nem a si mesmo. Programaram a vinda para este festival há semanas, gastaram um bom dinheiro com os ingressos, não podiam perdê-lo por causa de uma indisposição.
- Tudo bem, então – ela sorriu compreensiva – vamos até a praça de alimentação comprar uma água. Vou te dar uns comprimidos.
- Eu queria te perguntar uma coisa. Não sei, pode parecer absurdo.
- Pergunta.
- Envolve tudo isso que eu estou sentindo agora. Essa insônia. Esse mal-estar.
- Pergunta.
- Dá um tempo! Não é fácil! Você vai achar que eu estou louco.
- Pára de enrolar e pergunta de uma vez!
Respirou fundo.
- Hoje cedo, quando você me ligou. Por acaso você falou algo sobre o fim do mundo antes de me convidar para sair?
O rosto da namorada assumiu uma expressão séria. Ele perdeu a noção do tempo enquanto uma leve gota de suor deslizava por sua têmpora. Sentia o toque úmido percorrer cada milímetro de sua pele, como uma manada de elefantes pisoteando toda a praça. Ela precisava confirmar. Ela ia confirmar. Engoliu seco quando seus olhos captaram um leve movimento de seus lábios. Agora a verdade.
- Você pirou, cara.
O leve traço pálido que era sua boca curvou-se em um sorriso, tão enigmático e difícil de se decifrar que, em pouco tempo contemplando-o, ele enlouqueceria. Para a sua sorte, ela abaixou o rosto e recolheu o bicho-de-pelúcia em seu colo, colocando-o em cima da mesa. Puxou a corda. Qualquer som que sua maquinaria engenhosamente infantil tenha proferido não pôde ser ouvido. Uma respiração. Longa. Pesada. Mecânica.
Não pode ser real. Pensou, enquanto jogava a água fria que escorria pela torneira no rosto. Não é real.
Estava no banheiro público, curvado sobre a pia de mármore, tentando apagar as imagens distorcidas que apareciam em sua mente. Sabia que não estava dormindo. Tudo aquilo era real, não um sonho. A água era real. O toque de sua mão em seu rosto. O banheiro. O show. As pessoas. Ele. Ela. Mas o Coelho Branco não podia ser real.
- Olha lá! Uma máquina de bichinhos! Há quanto tempo nós não tentamos a sorte em uma dessas?
- Nós nunca ganhamos.
- Não seja pessimista. Quando você quer muito alguma coisa, o Universo conspira a seu favor! Vamos! Hoje eu estou com sorte!
O sorriso dela era encantador e sincero, não podia recusar. Já não lembrava mais da última vez em que os dois tiveram um desses surtos infantis e era culpa dele o fato de ela não estar no meio da multidão na frente do palco se divertindo com o festival. A enxaqueca ainda o perturbava um pouco, mas ele podia fazer esse sacrifício por ela. Com uma incômoda sensação de déjà vu, ele se deixou levar pelos puxões insistentes que ela fazia em seu braço.
Contemplou a máquina por um tempo enquanto analisava os possíveis, e ridiculamente mais fáceis alvos. Como sempre, existiam alguns que poderiam ser pegos de primeira, mas a garra mecânica sempre frustrava suas expectativas. Suspirou desanimado.
- Aqui, comprei a ficha! Vai lá, boa sorte!
- Alguma preferência?
- Me faça uma surpresa!
Os comentários animados deram alguma energia para seus punhos, que começaram a se mover. Primeiro ele inseriu a ficha. A garra mecânica se abriu. A mão esquerda segurou o joystick e guiou a garra até um alvo qualquer, tentaria a sorte. Soltou o controle e analisou a situação. Seu coração saltou para a garganta.
Ali, no meio de todos aqueles ursinhos, gatinhos e cachorrinhos, e logo abaixo do estrangulamento certeiro dos dedos metálicos da garra, estava o Coelho Branco de seus sonhos. Ficou paralisado com aquele choque surreal pelo que pareceram horas. Não pode ser real, pensou.
- O que você está esperando? Aperta o botão!
O botão. Grande. Vermelho. Logo embaixo da palma de sua mão direita. Era um sonho. Só podia ser mais um sonho estranho, semelhante ao que tivera na noite passada, do qual só lembrava o que escrevera no caderno. Agora entendeu: ele não escreveu nada, sonhou que leu o caderno naquela manhã, e ainda estava sonhando. Não era real. Tudo ao seu redor não era real. Bastava apertar o botão e tudo acabaria num piscar de olhos. Ele acordaria e contemplaria o teto escuro de seu quarto. Aperte o botão.
- Não posso!
Alguma coisa dentro de sua mente pulsava com força. No começo um leve batimento sem sentido, agora uma sensação da qual não podia fugir: o seu senso de realidade. Aquilo era real. Ele realmente estava ali. Ela realmente estava ao seu lado, apertando seu braço, ansiosa. Ele não podia apertar o botão e dar um fim a tudo. Não posso! Tentou levantar a mão, mas conseguiu deslocá-la apenas alguns centímetros no ar. Estava anormalmente pesada. O botão estava seduzindo seu inconsciente. Não podia escapar.
Foi então que sentiu o toque da mão dela por sobre a sua, forçando-a para baixo. Não teve tempo, nem forças, para gritar e acabar com toda aquela situação surreal. Sentiu a superfície fria do botão. Fechou os olhos. Apertou. Era o fim.
Risadas.
- Conseguiu! Você conseguiu! De uma maneira estranha, mas conseguiu!
Mais risadas.
Abriu os olhos e observou a garra mecânica subindo. Presa por entre os seus dedos havia uma argola, a qual estava amarrada a um cordão que certamente estaria preso nas costas de algum bichinho qualquer. Para agravar a sua paranóia, não era um ursinho ou um gatinho ou um cachorrinho o dono daquela argola. O Coelho Branco emergiu daquela multidão fofa e rodopiou lentamente por um tempo, enquanto a garra o arrastava preso pelo cordão até a saída. O pêlo branco e sintético refletia as luzes do interior da máquina e ofuscava os seus olhos lacrimejados. Quando fosse solto, o gatilho de seu mecanismo interior seria disparado e ele falaria qualquer baboseira fatal. O rapaz preferiu que tudo tivesse acabado quando o botão foi apertado. Mas ainda não acabou.
O Coelho Branco caiu na saída do prêmio, a argola foi solta. Agora ele estaria proferindo algum futuro trágico e enigmático. Não queria ouvir. Porém, as mãos alegres da acompanhante empurraram a portinhola e recolheram o prêmio. Tarde demais. Levou as mãos aos ouvidos e os apertou com força.
Eu te amo.
Ouvira direito? Não conseguiu raciocinar direito. Os gritinhos de felicidade da namorada e os beijos descontrolados que ela dava em sua face atrapalhavam o seu raciocínio. As lágrimas escorreram pelo seu rosto suado e tenso. Esfregou uma das mãos nos olhos e pôde observar melhor sem a difração aquosa. Contemplou a garota com uma expressão preocupada segurando um urso de pelúcia. Um simples urso. Marrom. Desbotado. Orelhas curtas.
- Você está bem?
- Preciso ir ao banheiro.
Jogou mais um pouco de água fria no rosto. Voltou a observar o próprio reflexo. Seus olhos estavam vermelhos, seu rosto pálido. Percebeu que as mãos tremiam. Um homem entrou no banheiro e o encarou por alguns instantes enquanto se dirigia ao mictório. Devia ter pensado qualquer besteira ao reparar a sua situação deplorável. Decidiu sair dali e voltar à praça de alimentação, onde ela estaria esperando, preocupada. Precisava conversar com ela, pedir desculpas. Mas também devia perguntar sobre o que ocorrera mais cedo ao telefone. Agora que o fim do mundo passou e os gatos estão alimentados, será que a gente podia sair mais tarde? Aquilo fora real ou só mais uma de suas alucinações? Isso estava começando a ficar preocupante.
- Cara, vá por mim, largue as drogas.
Despertou de seus pensamentos e se viu de frente ao espelho, enxugando lentamente as mãos. O homem que há aparentes instantes entrara no local, agora lavava as mãos e observava o rapaz com um sorriso debochado no rosto. Em seguida, ele sacudiu as mãos molhadas, respingando água no espelho, e saiu do banheiro rindo. Suspirou e afundou o rosto no papel, enxugando-o.
Caminhou até o lixeiro e jogou a bola de papel molhado no seu interior. Levantou a cabeça e olhou mais uma vez o próprio reflexo, despedindo-se de sua imagem pálida e triste. Então viu algo que não devia ver. Algo que seus olhos não enxergariam em seu estado normal. A porta de uma das cabines estava entreaberta e no seu interior existia a silhueta de um homem alto de feições anormais ou o vulto de algum monstro humanóide de face retorcida. Grandes olhos amarelos, letais, observavam o rapaz. Olhos assassinos que sugariam a sua alma no primeiro piscar. Seu organismo reagiu à situação e sua audição foi aguçada. Ouviu a respiração do ser nas sombras. Longa. Pesada. Mecânica.
Foi o suficiente para que suas pernas decidissem por si mesmas: saiu apressado e a passos largos do banheiro, trombando com um rapaz que estava entrando. Sem ao menos se desculpar, dirigiu-se à praça onde a garota o esperava. Lá estava ela, sentada em uma das mesas, alegre com o ursinho no colo. Precisava perguntar agora.
Percebeu o pânico nos olhos dela. Era real. A respiração não era alguma alucinação sua, ao menos que tudo fosse um sonho. Mas não é um sonho. Girou o tronco devagar na direção do som arrastado de ar inspirado e expirado. Suou frio. Contemplou o “ser de sombra” que o observava no banheiro. Era um homem alto, magro, assustador. Usava no rosto algo que lembrava uma máscara de mergulho ou de proteção contra gases tóxicos, o que provavelmente tornava o som de sua respiração tão pesado. Só os seus olhos eram visíveis por trás de todo aquele aparato mecânico, os mesmos olhos amarelos, letais. Ele possuía um revolver e o apontava a esmo pelo local.
Não podia ver a reação das outras pessoas, mas certamente estavam assustadas. Não conseguia ouvir qualquer outro som, apenas o longo e arrastado inspirar e expirar. Um movimento brusco no lado esquerdo. Um disparo. Um corpo caiu no chão com um ponto vermelho entre os olhos de onde fluiu uma torrente incontrolável de sangue. Aquele cara. O sorriso debochado fora substituído por uma expressão de espanto e terror. Estava morto.
O mascarado agora apontou a arma na direção do rapaz, de maneira brusca, num piscar de olhos. Assustado, caiu da cadeira e recuou no chão, até bater com as costas em outra mesa. Ouviu o grito da namorada, que se jogou em cima dele, e apertou o seu corpo com força. A envolveu nos braços, firme, mas sentiu que tremia até a alma.
- Você quer que pare?
Ouviu a voz abafada e mecânica do mascarado, como um pesadelo. Ele caminhou lentamente, ainda apontando a arma em sua direção. Isso não podia estar acontecendo. Precisava encontrar o botão vermelho antes que ele matasse mais alguém. Sentiu as lágrimas quentes da garota escorrendo em seu ombro.
- Faça parar.
O mascarado encostou o cano da arma por baixo do próprio queixo e puxou o gatilho. O gorgolejar mecânico, estridente, encheu os seus ouvidos e sua mente, enquanto o seu rosto em choque era fuzilado pelas gotas de sangue quente, ainda pulsante.
- O que você tem?
Não se deu conta de que finalmente chegaram a um local mais tranqüilo, onde as pessoas mantinham uma distância mínima de três metros entre si e os contatos íntimos só eram realizados entre os casais. Ela estava parada logo a sua frente. O rosto vermelho, a centímetros do seu, não disfarçava uma certa indignação de quem preferia estar lutando pela própria vida em frente ao palco a estar parado naquela zona livre de calor humano longe das caixas de som.
- Estou com um pouco de dor de cabeça, não dormi bem essa noite. Fique tranqüila, daqui a pouco passa.
Sabia muito bem que a dor não ia passar; não enquanto ele continuasse naquele local agressor de sua saúde física e mental. Porém, não podia decepcioná-la, nem a si mesmo. Programaram a vinda para este festival há semanas, gastaram um bom dinheiro com os ingressos, não podiam perdê-lo por causa de uma indisposição.
- Tudo bem, então – ela sorriu compreensiva – vamos até a praça de alimentação comprar uma água. Vou te dar uns comprimidos.
- Eu queria te perguntar uma coisa. Não sei, pode parecer absurdo.
- Pergunta.
- Envolve tudo isso que eu estou sentindo agora. Essa insônia. Esse mal-estar.
- Pergunta.
- Dá um tempo! Não é fácil! Você vai achar que eu estou louco.
- Pára de enrolar e pergunta de uma vez!
Respirou fundo.
- Hoje cedo, quando você me ligou. Por acaso você falou algo sobre o fim do mundo antes de me convidar para sair?
O rosto da namorada assumiu uma expressão séria. Ele perdeu a noção do tempo enquanto uma leve gota de suor deslizava por sua têmpora. Sentia o toque úmido percorrer cada milímetro de sua pele, como uma manada de elefantes pisoteando toda a praça. Ela precisava confirmar. Ela ia confirmar. Engoliu seco quando seus olhos captaram um leve movimento de seus lábios. Agora a verdade.
- Você pirou, cara.
O leve traço pálido que era sua boca curvou-se em um sorriso, tão enigmático e difícil de se decifrar que, em pouco tempo contemplando-o, ele enlouqueceria. Para a sua sorte, ela abaixou o rosto e recolheu o bicho-de-pelúcia em seu colo, colocando-o em cima da mesa. Puxou a corda. Qualquer som que sua maquinaria engenhosamente infantil tenha proferido não pôde ser ouvido. Uma respiração. Longa. Pesada. Mecânica.
Não pode ser real. Pensou, enquanto jogava a água fria que escorria pela torneira no rosto. Não é real.
Estava no banheiro público, curvado sobre a pia de mármore, tentando apagar as imagens distorcidas que apareciam em sua mente. Sabia que não estava dormindo. Tudo aquilo era real, não um sonho. A água era real. O toque de sua mão em seu rosto. O banheiro. O show. As pessoas. Ele. Ela. Mas o Coelho Branco não podia ser real.
- Olha lá! Uma máquina de bichinhos! Há quanto tempo nós não tentamos a sorte em uma dessas?
- Nós nunca ganhamos.
- Não seja pessimista. Quando você quer muito alguma coisa, o Universo conspira a seu favor! Vamos! Hoje eu estou com sorte!
O sorriso dela era encantador e sincero, não podia recusar. Já não lembrava mais da última vez em que os dois tiveram um desses surtos infantis e era culpa dele o fato de ela não estar no meio da multidão na frente do palco se divertindo com o festival. A enxaqueca ainda o perturbava um pouco, mas ele podia fazer esse sacrifício por ela. Com uma incômoda sensação de déjà vu, ele se deixou levar pelos puxões insistentes que ela fazia em seu braço.
Contemplou a máquina por um tempo enquanto analisava os possíveis, e ridiculamente mais fáceis alvos. Como sempre, existiam alguns que poderiam ser pegos de primeira, mas a garra mecânica sempre frustrava suas expectativas. Suspirou desanimado.
- Aqui, comprei a ficha! Vai lá, boa sorte!
- Alguma preferência?
- Me faça uma surpresa!
Os comentários animados deram alguma energia para seus punhos, que começaram a se mover. Primeiro ele inseriu a ficha. A garra mecânica se abriu. A mão esquerda segurou o joystick e guiou a garra até um alvo qualquer, tentaria a sorte. Soltou o controle e analisou a situação. Seu coração saltou para a garganta.
Ali, no meio de todos aqueles ursinhos, gatinhos e cachorrinhos, e logo abaixo do estrangulamento certeiro dos dedos metálicos da garra, estava o Coelho Branco de seus sonhos. Ficou paralisado com aquele choque surreal pelo que pareceram horas. Não pode ser real, pensou.
- O que você está esperando? Aperta o botão!
O botão. Grande. Vermelho. Logo embaixo da palma de sua mão direita. Era um sonho. Só podia ser mais um sonho estranho, semelhante ao que tivera na noite passada, do qual só lembrava o que escrevera no caderno. Agora entendeu: ele não escreveu nada, sonhou que leu o caderno naquela manhã, e ainda estava sonhando. Não era real. Tudo ao seu redor não era real. Bastava apertar o botão e tudo acabaria num piscar de olhos. Ele acordaria e contemplaria o teto escuro de seu quarto. Aperte o botão.
- Não posso!
Alguma coisa dentro de sua mente pulsava com força. No começo um leve batimento sem sentido, agora uma sensação da qual não podia fugir: o seu senso de realidade. Aquilo era real. Ele realmente estava ali. Ela realmente estava ao seu lado, apertando seu braço, ansiosa. Ele não podia apertar o botão e dar um fim a tudo. Não posso! Tentou levantar a mão, mas conseguiu deslocá-la apenas alguns centímetros no ar. Estava anormalmente pesada. O botão estava seduzindo seu inconsciente. Não podia escapar.
Foi então que sentiu o toque da mão dela por sobre a sua, forçando-a para baixo. Não teve tempo, nem forças, para gritar e acabar com toda aquela situação surreal. Sentiu a superfície fria do botão. Fechou os olhos. Apertou. Era o fim.
Risadas.
- Conseguiu! Você conseguiu! De uma maneira estranha, mas conseguiu!
Mais risadas.
Abriu os olhos e observou a garra mecânica subindo. Presa por entre os seus dedos havia uma argola, a qual estava amarrada a um cordão que certamente estaria preso nas costas de algum bichinho qualquer. Para agravar a sua paranóia, não era um ursinho ou um gatinho ou um cachorrinho o dono daquela argola. O Coelho Branco emergiu daquela multidão fofa e rodopiou lentamente por um tempo, enquanto a garra o arrastava preso pelo cordão até a saída. O pêlo branco e sintético refletia as luzes do interior da máquina e ofuscava os seus olhos lacrimejados. Quando fosse solto, o gatilho de seu mecanismo interior seria disparado e ele falaria qualquer baboseira fatal. O rapaz preferiu que tudo tivesse acabado quando o botão foi apertado. Mas ainda não acabou.
O Coelho Branco caiu na saída do prêmio, a argola foi solta. Agora ele estaria proferindo algum futuro trágico e enigmático. Não queria ouvir. Porém, as mãos alegres da acompanhante empurraram a portinhola e recolheram o prêmio. Tarde demais. Levou as mãos aos ouvidos e os apertou com força.
Eu te amo.
Ouvira direito? Não conseguiu raciocinar direito. Os gritinhos de felicidade da namorada e os beijos descontrolados que ela dava em sua face atrapalhavam o seu raciocínio. As lágrimas escorreram pelo seu rosto suado e tenso. Esfregou uma das mãos nos olhos e pôde observar melhor sem a difração aquosa. Contemplou a garota com uma expressão preocupada segurando um urso de pelúcia. Um simples urso. Marrom. Desbotado. Orelhas curtas.
- Você está bem?
- Preciso ir ao banheiro.
Jogou mais um pouco de água fria no rosto. Voltou a observar o próprio reflexo. Seus olhos estavam vermelhos, seu rosto pálido. Percebeu que as mãos tremiam. Um homem entrou no banheiro e o encarou por alguns instantes enquanto se dirigia ao mictório. Devia ter pensado qualquer besteira ao reparar a sua situação deplorável. Decidiu sair dali e voltar à praça de alimentação, onde ela estaria esperando, preocupada. Precisava conversar com ela, pedir desculpas. Mas também devia perguntar sobre o que ocorrera mais cedo ao telefone. Agora que o fim do mundo passou e os gatos estão alimentados, será que a gente podia sair mais tarde? Aquilo fora real ou só mais uma de suas alucinações? Isso estava começando a ficar preocupante.
- Cara, vá por mim, largue as drogas.
Despertou de seus pensamentos e se viu de frente ao espelho, enxugando lentamente as mãos. O homem que há aparentes instantes entrara no local, agora lavava as mãos e observava o rapaz com um sorriso debochado no rosto. Em seguida, ele sacudiu as mãos molhadas, respingando água no espelho, e saiu do banheiro rindo. Suspirou e afundou o rosto no papel, enxugando-o.
Caminhou até o lixeiro e jogou a bola de papel molhado no seu interior. Levantou a cabeça e olhou mais uma vez o próprio reflexo, despedindo-se de sua imagem pálida e triste. Então viu algo que não devia ver. Algo que seus olhos não enxergariam em seu estado normal. A porta de uma das cabines estava entreaberta e no seu interior existia a silhueta de um homem alto de feições anormais ou o vulto de algum monstro humanóide de face retorcida. Grandes olhos amarelos, letais, observavam o rapaz. Olhos assassinos que sugariam a sua alma no primeiro piscar. Seu organismo reagiu à situação e sua audição foi aguçada. Ouviu a respiração do ser nas sombras. Longa. Pesada. Mecânica.
Foi o suficiente para que suas pernas decidissem por si mesmas: saiu apressado e a passos largos do banheiro, trombando com um rapaz que estava entrando. Sem ao menos se desculpar, dirigiu-se à praça onde a garota o esperava. Lá estava ela, sentada em uma das mesas, alegre com o ursinho no colo. Precisava perguntar agora.
Percebeu o pânico nos olhos dela. Era real. A respiração não era alguma alucinação sua, ao menos que tudo fosse um sonho. Mas não é um sonho. Girou o tronco devagar na direção do som arrastado de ar inspirado e expirado. Suou frio. Contemplou o “ser de sombra” que o observava no banheiro. Era um homem alto, magro, assustador. Usava no rosto algo que lembrava uma máscara de mergulho ou de proteção contra gases tóxicos, o que provavelmente tornava o som de sua respiração tão pesado. Só os seus olhos eram visíveis por trás de todo aquele aparato mecânico, os mesmos olhos amarelos, letais. Ele possuía um revolver e o apontava a esmo pelo local.
Não podia ver a reação das outras pessoas, mas certamente estavam assustadas. Não conseguia ouvir qualquer outro som, apenas o longo e arrastado inspirar e expirar. Um movimento brusco no lado esquerdo. Um disparo. Um corpo caiu no chão com um ponto vermelho entre os olhos de onde fluiu uma torrente incontrolável de sangue. Aquele cara. O sorriso debochado fora substituído por uma expressão de espanto e terror. Estava morto.
O mascarado agora apontou a arma na direção do rapaz, de maneira brusca, num piscar de olhos. Assustado, caiu da cadeira e recuou no chão, até bater com as costas em outra mesa. Ouviu o grito da namorada, que se jogou em cima dele, e apertou o seu corpo com força. A envolveu nos braços, firme, mas sentiu que tremia até a alma.
- Você quer que pare?
Ouviu a voz abafada e mecânica do mascarado, como um pesadelo. Ele caminhou lentamente, ainda apontando a arma em sua direção. Isso não podia estar acontecendo. Precisava encontrar o botão vermelho antes que ele matasse mais alguém. Sentiu as lágrimas quentes da garota escorrendo em seu ombro.
- Faça parar.
O mascarado encostou o cano da arma por baixo do próprio queixo e puxou o gatilho. O gorgolejar mecânico, estridente, encheu os seus ouvidos e sua mente, enquanto o seu rosto em choque era fuzilado pelas gotas de sangue quente, ainda pulsante.
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