sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sorte nº 2 - O Trovão

Acordou sobressaltado como quem acorda de um sonho em queda livre. Demorou um pouco para perceber que estava inteiro, que estava vivo; não colidira contra a calçada molhada de sua mente, estava deitado em sua cama, no meio da escuridão da madrugada de seu quarto. Estava bem.
Aos poucos sua percepção do ambiente foi se aguçando e ele ouviu o toque estridente de seu despertador, como não o ouviu antes? Sentou-se na beira da cama, esticou uma das mãos e o desligou. Sentiu o chão frio com os pés e só então notou que estava encharcado de suor, precisava levantar e tomar um banho. No caminho para o banheiro, enquanto se despia, um pensamento lhe passou pela mente, que o fez voltar ao criado-mudo e observar o visor digital do despertador. 2:08 am. Porque programara o aparelho para despertá-lo a essa hora?
A sensação de alívio ao sentir a água quente tocar o seu corpo relaxou sua mente. Passou então a meditar e procurar a resposta em sua memória, ela devia estar por aí em algum lugar, e sempre que ele chegava perto e triscava a ponta dos dedos em seus pêlos brancos, ela escapulia, saltando, com um sorriso provocante no rosto.
Depois de um bom tempo, embaixo da água quente, alheio à realidade, ele pôde sentir as mãos de sua mente fechando-se sobre as longas orelhas brancas da recordação. Bastava puxar a corda...

- Então seu problema não é insônia? Tem certeza que está dormindo bem? Não sei se você deve considerar isso um problema.
- Estou dormindo bem, sim. Oito horas por noite, sem acordar nenhuma vez sequer. E não é que seja um problema, é mais uma necessidade, uma válvula de escape. Há tempos que isso não ocorre comigo. Tornou-se um tanto chato encontrar com algum amigo que passou por “experiências surreais” recentes, relatando feliz o que aconteceu durante a noite.
- Oras, isso varia, cara. Esta noite mesmo eu lembro que isso ocorreu comigo. Mas, eu nem lembro de nada. E olha eu aqui: tranqüilo. Não estou pensando em fazer uma terapia ou algo do tipo para superar esse problema. Pensando bem, talvez seja esse o seu problema: você não lembra de nada!
- Aí é que está! Você pelo menos lembra que passou por isso essa noite. Não estou falando de detalhes, estou falando do ato em si. Eu não venho tendo a mínima sensação de que isso ocorreu.
- Cara, concluí: você é louco. Mas talvez eu possa te ajudar. Ouvi falar uma vez, mas deve ser furada, que para que isso ocorra é preciso de algum estímulo externo. O “gatilho” não é uma coisa intrínseca. Como você vem passando por noites tranqüilas, sem perturbações, você não vem percebendo tudo o que se passa na sua mente. Você tem hora certa pra dormir e acordar. Isso já deve ter se tornado mecânico. Aposto que você acorda uns cincos ou dez minutos antes do seu despertador tocar, certo?
- Bingo.
- Então, você vai ter que “perturbar” um pouco a sua mente.
- E como eu farei isso? Eu moro sozinho e a minha rua é muito tranqüila durante a noite. Não existem cachorros latindo ou gatos brigando por lá, nem crianças chorando, nem algo que possa atrapalhar o meu sono.
- Não seja idiota. Os gatos não brigam, eles dançam. Dançam pelas fêmeas. Você e eu brigamos, eles não. E você tem o seu despertador. Programe-o para liberar um bip a cada minuto, dez minutos antes da hora do despertar. Isso vai manter a sua mente em um estado de consciência, apesar da sonolência, o que vai lhe garantir um lugar na primeira fila para a hora do show, quando todo o seu sonho passar como um flash diante dos seus olhos.
- Como você sabe de tudo isso? Não disse que deve ser furada?
- Vá por mim, quando você quer muito alguma coisa, o universo conspira ao seu favor. E lembre-se de anotar tudo o que se passou assim que acordar, pois vai ser um tanto frustrante você finalmente sonhar depois de um longo período e se esquecer do mesmo meia hora depois. Nadar, nadar e morrer na praia não é divertido.
- Vou tentar lembrar desse conselho.
- E mais uma coisa: o horário deve ser aleatório. Não saiba a hora em que seu despertador vai lhe acordar. Sua mente pode estar confabulando contra você.

A lembrança surgiu como um punho em sua mente e o acertou em cheio. Ficou parado por alguns minutos embaixo do chuveiro enquanto debatia consigo mesmo sobre tudo que seu amigo lhe dissera e como seguira os seus conselhos na noite do dia anterior. As memórias surgiam como uma cascata em sua cabeça. Chegou em casa. Programou o despertador de olhos fechados, e achou graça disso. Deitou na cama e passou um bom tempo acordado. Tempo demais. Dormiu. Acordou com o telefone. Dormiu de novo. Todos esses acontecimentos passaram por sua mente em fast forward, o que dificultou um pouco o seu raciocínio.

... Anotar tudo o que se passou assim que acordar... Esquecer do mesmo meia hora depois... Nadar, nadar e morrer na praia... Não molhe a cauda...

Desligou o chuveiro de súbito, se enrolou em uma toalha sem ao menos se enxugar, correu para o quarto. Procurou um caderno qualquer, ou um diário, onde pudesse anotar tudo o que se passou em sua mente antes de acordar. Encontrou um caderno pequeno dentro de uma das gavetas do criado-mudo, arrumou um lápis, sentou-se na cama e disparou a chacoalhar a memória mais uma vez, tentando lembrar-se do sonho.
Branco.
Sua mente estava vazia. Não conseguia recordar nada. Era um sonho sobre crianças? Comidas? Monstros? Corridas? Mulheres? Não sabia. Esquecera-se de tudo. As imagens latentes de seu sonho já não pulsavam mais em seu cérebro. O rabo fofo e branco de sua recordação já não era mais visto no Nada que preenchia seus pensamentos.
Baixou a cabeça, decepcionado. E observou o caderno e suas páginas em branco, notavelmente decepcionadas. Já não seriam mais escritas, não esta noite; e sabe-se lá quando seria a próxima. Jogou o caderno e o lápis para o lado, deitou-se na cama e dormiu. Molhado, cansado, indignado. Morreu na praia. Molhou a cauda

Acordou com o som do telefone. Deixou o mesmo tocar por um bom tempo, até que decidiu levantar-se e xingar quem quer que esteja lhe ligando justamente por ligar tão cedo. Mas bastou sentar na cama e colocar os pés no chão para o som findar. Revoltado e decidido a xingar alguém, xingou a si mesmo.
O Sol já estava alto lá fora, tinha que levantar. Respirou fundo. Notou a textura diferente do chão por baixo do seu pé direito. Era o caderno que sua mente boicotou na madrugada, com uma diferença: ele estava escrito. Não notou este fato de súbito, passou algum tempo encarando a sua própria letra até que a cognição ocorreu. Saltou da cama, apanhou o caderno e começou a ler o que escrevera.

O sonho dessa noite foi engraçado, não sei, acho que todos os sonhos são engraçados. É por isso que eu preciso tanto deles. Sei lá, gosto, não sei explicar. Eu estava sentado na sombra de uma árvore grande, grande mesmo. Não lembro o tipo. E uma relva se espalhava por toda a planície. Era apenas isso. Uma planície sem fim, como se o mundo, ou o universo, fosse apenas a planície, com mato rasteiro. Uma árvore e minha pessoa relaxando na sombra.
Não sei como, nem quando, mas me vi conversando sobre a minha vida com uma menina de longos cachos ruivos. Ela perguntava sobre minha mãe, não lembro bem agora... Era uma menina bonita, mas não sei bem dizer a idade dela. Uma hora ela parecia pequenina, enquanto noutra já era uma mulher madura. Enfim, nós conversamos até quando o coelho apareceu.
Era um coelho branco, de pelúcia, com uma daquelas “argolas” nas costas, que ficam presas em uma cordinha e você puxa pra fazer o boneco falar algo. Bem, o coelho apareceu, mas nós não o notamos de princípio. Não sei, ele simplesmente andava de lá pra cá, e a gente não olhava pra ele. Até que eu o vi me chamando. Ele acenava apenas, não falava. Chamava-me para a sua toca. Acho que aceitei o convite, pois me levantei e deixei a menina como segundo plano. Até me esqueci dela enquanto deslizava pela grama em direção ao coelho.
A menina me seguiu correndo, ela pareceu correr pela eternidade, e segurou a minha mão, dizendo em meio às lágrimas que eu não fosse para a casa do coelho. Eu sorri e a beijei. Disse que não havia problemas, que ela não precisava se preocupar. Ao retornar minha caminhada em direção à toca, percebi que o coelho apontava uma arma para a própria cabeça. Não sabia o que se passava nos miolos de pelúcia daquele boneco. Ele puxou a própria cordinha e sua voz meiga e metálica disse “Game Over”.
Então, o coelho apontou a arma para a menina e disparou. Não contei quantos tiros ele deu, foram tantos, mas parecia apenas um, visto e revisto umas trezentas vezes, pois o corpo da menina demorou muito para cair no chão. Mas, enfim, caiu e os vermes comeram a sua carne desfigurada. No meio daquela massa orgânica podre, um botão surgiu. Um grande e gordo botão vermelho.
O coelho caminhou para o meu lado (a arma desapareceu) e abraçou a minha perna. Eu o peguei no colo e puxei a sua cordinha. “Feliz Aniversário!” ele disse. Eu sorri e voltei a ser criança. Estiquei meu braço e apertei o botão. Fim!

E.B.

O telefone tocou. Ele não soube quanto tempo ficou paralisado após ler o relato do próprio sonho, mas o som estridente do telefone o despertou. Caminhou como uma máquina, sem sentimentos, em direção ao aparelho e o tirou do gancho. Levou-o até o ouvido e não disse uma palavra, nada lhe vinha em mente. Escutou uma voz feminina familiar do outro lado da linha.
- Agora que o fim do mundo passou e os gatos estão alimentados, será que a gente podia sair mais tarde?

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