Dez minutos.
Abriu os olhos e encarou o edifício a sua frente. Como era alto e sem fim... Zeus moraria em seu ápice e distribuiria raios para os mortais, simples assim. Ateve-se a olhar o corpo que caia, ele mesmo. Voltou a imagem e analisou bem a cena. Quadragésimo segundo andar, pelos seus cálculos. Retirou o Coelho Branco de baixo do braço e puxou a corda. Quarenta e dois, disse o coelho em sua voz meiga e metálica, como o próprio inverno. Estava certo e devia se apressar. Logo ele atingiria o solo.
Nove minutos.
Abriu os olhos e se viu dentro de um elevador. Não procurou pelos botões numéricos, sabia que eles não existiam. Tudo sempre foi tão lógico. Havia apenas um botão, o vermelho, destacado em meio a outras coisas que não possuíam destaque, portanto, não podem ser descritas. Apertou-o.
Em meio ao som mecânico do movimento, ele ouviu o choro de uma criança. Era um som reprimido, baixo, como se a própria criança não quisesse chorar. Olhou para o lado e a viu encolhida no canto, com o rosto afundado nos joelhos.
- Ele tem mesmo que fazer isso? Perguntou o menino, entre soluços abafados.
- Sim, tem. É o seu destino.
- E o que será de mim?
- Você tem que aceitar. Crescer.
- E o que eu devo fazer agora?
- Chore.
Horas depois, as portas se abriram. Ele chegou ao seu destino. Saiu do elevador e as portas se fecharam, abafando os gritos desesperados do passado.
Oito minutos.
Caminhou pelo longo corredor sem ouvir os próprios passos, como se flutuasse. Muitas eram as portas e muitos eram os gritos de agonia daqueles que estavam por trás delas. Não podia errar, tinha que escolher a porta certa. Sentiu-se criança mais uma vez e não queria enfrentar seus pesadelos. Tinha pressa. Na dúvida, puxou a corda do Coelho Branco.
- Três portas abaixo. Disse o Coelho.
Estava certo, como sempre. Lá estava ela, mais alguns passos e tudo terminaria. Estendeu a mão e a porta saltou em sua frente. Sorriu e se preparou para girar a maçaneta, porém ela girou sozinha. A porta foi aberta por dentro.
Sete minutos.
- Estou de saída.
- E para onde vai?
- Não sei, é o fim do mundo.
- E isso importa?
- Prometemos ficar juntos até o fim. Pronto. O Fim chegou.
- Pensei que tudo isso fosse infinito.
- Não até o próximo Big Bang. Agora chega. Estou cansada. Preciso alimentar os gatos antes do fim.
- Então a gente se vê em outra vida.
- Não seja dramático, é só o fim do mundo. Mais tarde eu te ligo.
- Vou estar esperando. Beijos. Eu te amo.
- Até o fim.
Desligou o telefone.
Seis minutos.
Ele se viu deitado no leito, com fios, tubos e agulhas fazendo um complemento ao seu próprio sistema orgânico, cansado com a vida. Acenou para seu Eu em estado terminal e recebeu um sorriso em retribuição. Caminhou tranqüilamente e sentou-se em uma cadeira ao lado da cama. Segurou a mão pálida e fria de sua imagem e a beijou. Ouviu sua própria voz rouca e gasta dizer:
- Olhe para o Universo. Está chovendo.
Olhou e riu.
- Engraçado.
Cinco minutos.
Estava chovendo e não era possível ver as estrelas. A água batia com força contra a janela, como se um oceano estivesse caindo dos céus. Em outras ocasiões, sentiria o frio da morte, mas não agora. Tudo estava tranqüilo, não era o fim do mundo.
Voltou a olhar para si mesmo, no leito, e suspirou.
- Quando?
- Em breve.
- Talvez eu não esteja preparado para isso.
- Não está. Nem nunca vai estar. Eu também não estou.
- É uma pena que termine dessa maneira.
- Você deveria estar olhando para o Universo.
Quatro minutos.
Tudo mudou. A chuva se tornou ácida. O mundo estava ruindo. Aviões, helicópteros, zepelins, todo tipo de aeronave caia em chamas dos céus e explodia em fogos de artifício ao tocar o solo ou algum arranha-céu. Tudo estava alagado, o oceano avançou. E, no meio das explosões, ondas e gritos, dois homens lutavam, ou seriam três, ou quatro, ou vários sem conta. O esplendor dos guerreiros era infinito e o Universo não influía em nada na batalha. Na verdade, a batalha influía no Universo. O homem de quatro braços e três olhos portava quatro espadas e apresentava o corpo andrógino nu. O outro possuía uma longa barba e pêlos grisalhos por todo o corpo e defendia os golpes das lâminas com um cajado que era a própria Terra.
- Porque eles estão lutando?
- Não seja idiota. Eles estão dançando. Vocês que inventaram essa história de briga.
- E quem são eles?
- Eles são você.
Três minutos.
- Está na hora. Ouviu sua voz rouca sussurrar.
- Ainda faltam três minutos. Eu podia ler algum livro.
- Não tenha medo do fim. A criança já chorou, não vê o dilúvio?
- Um último conselho? Nunca estarei preparado.
- Pergunte ao Coelho Branco. Ele acalmará a tua angústia.
Puxada a corda, logo o Coelho iniciou sua profecia.
- Hexagrama 64: Wei Chi, antes da realização. Se a jovem raposa, antes de completar a travessia do rio, molhar sua cauda, não haverá vantagem alguma. Não há arrependimento. A vitória foi conquistada. Todos os problemas foram resolvidos. Um tempo luminoso chegou e já não há sombra da miséria do tempo que passou.
- Chegou a hora.
Dois minutos.
Ele estava ensopado. Seu roupão parecia pesar três vezes mais. Sua mente parecia pesar quinze vezes mais. Não podia fracassar agora, no fim. Caminhou rumo aos aparelhos que mantinham seu outro Eu vivo. Foi difícil: a água já estava batendo em seus joelhos. Mas enfim, chegara a hora.
O botão vermelho e brilhante estava ao seu alcance, bastava apertá-lo para colocar um fim em tudo. Não haveria mais preocupações, não haveria mais brigas e desespero. Desviou o olhar do botão para se observar pela última vez. Sorriu para si mesmo, radiante, já livre do fardo da dúvida. A água já não o incomodava mais, deixou de existir. Estava nu. Apoiou a mão na superfície do botão e sentiu a sua superfície lisa e fria, como o gelo. A sua pele se dissolveu e se fundiu ao botão, não existia escapatória. Era o fim.
- Não molhe a cauda.
Apertou o botão.
Um minuto.
Silêncio. Todos os sons emitidos pela aparelhagem se extinguiram. Nem mesmo a chuva fuzilando o edifício, nem mesmo as explosões produziam som algum. Sua mente esvaziou-se, nenhum pensamento, nenhuma emoção. Olhou para a cama e se viu morto. As paredes estavam tremendo, logo seriam julgadas pela gravidade que tanto infringiram.
Um som. Grave. Ensurdecedor. Batidas de um coração. Do coração divino, do próprio coração. O mundo desabaria em breve com esse som. Tão terrível. Tão reconfortante. Deslizou até a janela e observou a cena. Os titãs ainda lutavam, não, dançavam. Abriu a janela e subiu no parapeito. Olhou para baixo e contemplou o solo. Percebeu, então, algo parecido com uma corda de tecido orgânico presa ao seu umbigo. Podia sentir o próprio sangue ser aspirado por esse cordão. Estendeu os braços para os lados e tombou a cabeça para trás, sentindo a chuva bater em seu corpo. O cordão umbilical sugava com cada vez mais força, exercendo uma forte tração em seu abdômen. Não apresentou resistências e caiu.
Abriu os olhos e encarou o edifício a sua frente. Como era alto e sem fim... Zeus moraria em seu ápice e distribuiria raios para os mortais, simples assim. Ateve-se a olhar o corpo que caia, ele mesmo. Voltou a imagem e analisou bem a cena. Quadragésimo segundo andar, pelos seus cálculos. Retirou o Coelho Branco de baixo do braço e puxou a corda. Quarenta e dois, disse o coelho em sua voz meiga e metálica, como o próprio inverno. Estava certo e devia se apressar. Logo ele atingiria o solo.
Nove minutos.
Abriu os olhos e se viu dentro de um elevador. Não procurou pelos botões numéricos, sabia que eles não existiam. Tudo sempre foi tão lógico. Havia apenas um botão, o vermelho, destacado em meio a outras coisas que não possuíam destaque, portanto, não podem ser descritas. Apertou-o.
Em meio ao som mecânico do movimento, ele ouviu o choro de uma criança. Era um som reprimido, baixo, como se a própria criança não quisesse chorar. Olhou para o lado e a viu encolhida no canto, com o rosto afundado nos joelhos.
- Ele tem mesmo que fazer isso? Perguntou o menino, entre soluços abafados.
- Sim, tem. É o seu destino.
- E o que será de mim?
- Você tem que aceitar. Crescer.
- E o que eu devo fazer agora?
- Chore.
Horas depois, as portas se abriram. Ele chegou ao seu destino. Saiu do elevador e as portas se fecharam, abafando os gritos desesperados do passado.
Oito minutos.
Caminhou pelo longo corredor sem ouvir os próprios passos, como se flutuasse. Muitas eram as portas e muitos eram os gritos de agonia daqueles que estavam por trás delas. Não podia errar, tinha que escolher a porta certa. Sentiu-se criança mais uma vez e não queria enfrentar seus pesadelos. Tinha pressa. Na dúvida, puxou a corda do Coelho Branco.
- Três portas abaixo. Disse o Coelho.
Estava certo, como sempre. Lá estava ela, mais alguns passos e tudo terminaria. Estendeu a mão e a porta saltou em sua frente. Sorriu e se preparou para girar a maçaneta, porém ela girou sozinha. A porta foi aberta por dentro.
Sete minutos.
- Estou de saída.
- E para onde vai?
- Não sei, é o fim do mundo.
- E isso importa?
- Prometemos ficar juntos até o fim. Pronto. O Fim chegou.
- Pensei que tudo isso fosse infinito.
- Não até o próximo Big Bang. Agora chega. Estou cansada. Preciso alimentar os gatos antes do fim.
- Então a gente se vê em outra vida.
- Não seja dramático, é só o fim do mundo. Mais tarde eu te ligo.
- Vou estar esperando. Beijos. Eu te amo.
- Até o fim.
Desligou o telefone.
Seis minutos.
Ele se viu deitado no leito, com fios, tubos e agulhas fazendo um complemento ao seu próprio sistema orgânico, cansado com a vida. Acenou para seu Eu em estado terminal e recebeu um sorriso em retribuição. Caminhou tranqüilamente e sentou-se em uma cadeira ao lado da cama. Segurou a mão pálida e fria de sua imagem e a beijou. Ouviu sua própria voz rouca e gasta dizer:
- Olhe para o Universo. Está chovendo.
Olhou e riu.
- Engraçado.
Cinco minutos.
Estava chovendo e não era possível ver as estrelas. A água batia com força contra a janela, como se um oceano estivesse caindo dos céus. Em outras ocasiões, sentiria o frio da morte, mas não agora. Tudo estava tranqüilo, não era o fim do mundo.
Voltou a olhar para si mesmo, no leito, e suspirou.
- Quando?
- Em breve.
- Talvez eu não esteja preparado para isso.
- Não está. Nem nunca vai estar. Eu também não estou.
- É uma pena que termine dessa maneira.
- Você deveria estar olhando para o Universo.
Quatro minutos.
Tudo mudou. A chuva se tornou ácida. O mundo estava ruindo. Aviões, helicópteros, zepelins, todo tipo de aeronave caia em chamas dos céus e explodia em fogos de artifício ao tocar o solo ou algum arranha-céu. Tudo estava alagado, o oceano avançou. E, no meio das explosões, ondas e gritos, dois homens lutavam, ou seriam três, ou quatro, ou vários sem conta. O esplendor dos guerreiros era infinito e o Universo não influía em nada na batalha. Na verdade, a batalha influía no Universo. O homem de quatro braços e três olhos portava quatro espadas e apresentava o corpo andrógino nu. O outro possuía uma longa barba e pêlos grisalhos por todo o corpo e defendia os golpes das lâminas com um cajado que era a própria Terra.
- Porque eles estão lutando?
- Não seja idiota. Eles estão dançando. Vocês que inventaram essa história de briga.
- E quem são eles?
- Eles são você.
Três minutos.
- Está na hora. Ouviu sua voz rouca sussurrar.
- Ainda faltam três minutos. Eu podia ler algum livro.
- Não tenha medo do fim. A criança já chorou, não vê o dilúvio?
- Um último conselho? Nunca estarei preparado.
- Pergunte ao Coelho Branco. Ele acalmará a tua angústia.
Puxada a corda, logo o Coelho iniciou sua profecia.
- Hexagrama 64: Wei Chi, antes da realização. Se a jovem raposa, antes de completar a travessia do rio, molhar sua cauda, não haverá vantagem alguma. Não há arrependimento. A vitória foi conquistada. Todos os problemas foram resolvidos. Um tempo luminoso chegou e já não há sombra da miséria do tempo que passou.
- Chegou a hora.
Dois minutos.
Ele estava ensopado. Seu roupão parecia pesar três vezes mais. Sua mente parecia pesar quinze vezes mais. Não podia fracassar agora, no fim. Caminhou rumo aos aparelhos que mantinham seu outro Eu vivo. Foi difícil: a água já estava batendo em seus joelhos. Mas enfim, chegara a hora.
O botão vermelho e brilhante estava ao seu alcance, bastava apertá-lo para colocar um fim em tudo. Não haveria mais preocupações, não haveria mais brigas e desespero. Desviou o olhar do botão para se observar pela última vez. Sorriu para si mesmo, radiante, já livre do fardo da dúvida. A água já não o incomodava mais, deixou de existir. Estava nu. Apoiou a mão na superfície do botão e sentiu a sua superfície lisa e fria, como o gelo. A sua pele se dissolveu e se fundiu ao botão, não existia escapatória. Era o fim.
- Não molhe a cauda.
Apertou o botão.
Um minuto.
Silêncio. Todos os sons emitidos pela aparelhagem se extinguiram. Nem mesmo a chuva fuzilando o edifício, nem mesmo as explosões produziam som algum. Sua mente esvaziou-se, nenhum pensamento, nenhuma emoção. Olhou para a cama e se viu morto. As paredes estavam tremendo, logo seriam julgadas pela gravidade que tanto infringiram.
Um som. Grave. Ensurdecedor. Batidas de um coração. Do coração divino, do próprio coração. O mundo desabaria em breve com esse som. Tão terrível. Tão reconfortante. Deslizou até a janela e observou a cena. Os titãs ainda lutavam, não, dançavam. Abriu a janela e subiu no parapeito. Olhou para baixo e contemplou o solo. Percebeu, então, algo parecido com uma corda de tecido orgânico presa ao seu umbigo. Podia sentir o próprio sangue ser aspirado por esse cordão. Estendeu os braços para os lados e tombou a cabeça para trás, sentindo a chuva bater em seu corpo. O cordão umbilical sugava com cada vez mais força, exercendo uma forte tração em seu abdômen. Não apresentou resistências e caiu.
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